agosto 03, 2020

Momentos

Sentado à mesa do computador, pernas sobre a cama, um pé sobre o outro. No colo, um livro de páginas artificialmente amareladas e de grande volume. Rosto apoiado na mão direita, braço esquerdo repousado no apoio da cadeira. Próximo ao joelho um pequeno gato branco dorme tranquilamente.
Os sons da TV em outro ambiente são apenas ruídos inteligíveis, os olhos distraídos passeiam nas letras arrumadas em retângulos incompletos nas páginas, as palavras não são analisadas, apenas absorvidas formando uma sequência de eventos em outros lugar e outro tempo, uma realidade há muito descrita. Absorto em outras vidas, não sinto a perna adormecer e a má postura não provoca dores, tão comuns ultimamente.
A concentração só é arranhada quando o pequeno gato se da conta que tem um humano perto e usa suas patas dianteiras, as únicas completamente funcionais, para pedir carinho. No automático a mão se aproxima dele, ora acariciando, ora sendo agarrada, lambida e mordiscada, num misto de carinho e posse e indescritível afeto.
Após o término de um capítulo aleatório, páginas distantes do início da leitura o portal a esse outro mundo é fechado e a entediante normalidade de mais uma noite comum se faz presente.

junho 27, 2020

Maus conselheiros.

Dor é melhor conselheira que amor e, obviamente, medo.

Não vou perder o meu, e o seu tempo aqui dizendo porque medo e amor não devem ser ouvidos na hora de tomar uma decisão, é óbvio demais e eu não sou profeta (tem que ter cultura para entender essa).

Quando estamos em dor, principalmente se for crônica, estressante e sem esperanças de acabar nos força a pensar em outras coisas, em várias coisas, e muitas coisas ao mesmo tempo. Força a gente a ficar focado e funcionando em um tipo de segundo plano de pensamento. O cérebro tem que se concentrar em outra coisa, isso deixa a gente mais rápido, detalhista e preciso.
Sinceramente, funciona que é uma beleza, mas eu não recomendo.

junho 01, 2020

X vezes menos um, em módulo, ainda é X.

Sempre que há uma onda massiva de protestos violentos, que terminam em saques, destruição de patrimônio e roubo pura e simplesmente, vem o pessoal "do bem" justificar essas ações torpes. Parece que a violência quando é a nosso (no caso, deles) favor é uma ferramenta muito útil e deve ser utilizada sem moderação, afinal, se pensa diferente de mim é meu inimigo. 
Um esclarecimento: uma coisa é o direito de defesa da vítima e não é disso que estou falando, até porque ironicamente quem alega esse argumento é contra a população se armar.
O que eu vejo, ou melhor, o que eu não vejo é a diferença em se usar violência, qualquer que seja o motivo. Não vejo justificativa. Vejo apenas pessoas iguais que por algum motivo acham que estão em lados opostos, o lado "do bem" e "do mal", isso na visão deles.
Não há lado do bem quando se luta pra impor suas ideias de maneira unânime, não há lado do bem quando quem pensa diferente é inimigo, não há lado do bem que ache agressão um método válido de argumentação, não há lado do bem quando se quer conseguir apoiadores por intimidação, não por mérito das suas ideias. Não há lado do bem.
É preciso começar a entender o mundo hoje sem a visão bilateral, sem a dicotomia do nós e eles, Esquerda e Direita, bom e mau. O que parece existir são vários lados, todos do lado do mal e eu não quero pertencer a nenhum deles.
De que lado eu estou? Estou onde sempre estive e onde sempre vou ficar, mesmo sozinho, sempre sozinho, estou do meu lado.

maio 31, 2020

Enquanto dependerem de nós.

Independência não é não depender do outro, isso é fácil, bem fácil. Basta um emprego com um salário bom e alguma estabilidade psicológica, nem precisa de muito. Basta ter ser um mínimo autossuficiente para pagar suas contas e aprender a conviver com sua própria personalidade.
Mas a independência verdadeira só vem quando as pessoas não dependem de nós. Quando a gente é livre para fazer o que precisar, fazer o que queremos, inclusive largar tudo, desistir de tudo sem deixar ninguém pra trás, ninguém desamparado no processo.
Enquanto alguém que estimamos depender da gente, física, financeira ou psicologicamente, estaremos presos a ela, estaremos dependentes da nossa consciência de certo e errado, de não querer ou poder conviver com as consequências de seguir em frente ou de largar tudo.
Todos nós somos dependentes e seremos enquanto as pessoas que dependem de nós não se tornarem, elas mesmas, independentes.

maio 30, 2020

Reflexos de luz e sombras.

Muitas pessoas estão, não literalmente, enlouquecendo com o confinamento causado pelo Vírus Chinês nesses primeiros meses de 2020. O fato de estarem em casa (e eu aqui não vou entrar no problema econômico, não dessa vez), mesmo com salário garantido, mas sem sair, ver gente, ver rua. Trabalhando de longe de colegas, parentes, às vezes até namoradas, sem contato e com mais tempo para conviverem com eles mesmos.
E esse é o problema.
Muita gente fala em refletir, mas quando refletimos vemos nosso próprio reflexo.
E aí?
Com o tempo que nos foi imposto pela pandemia estamos nos encarando mais, vendo com mais detalhes e sem ter nada que desvie o foco. Quantos estão gostando do que estão vendo? Vou além. Quantos estão se surpreendendo, negativamente, com o que estão vendo? Todas suas características, sem máscaras, sem justificativas, apenas como somos, nus e crus. Nos pensamentos mais fundos, mais escondidos nas sombras de uma pálida luz de virtudes falsas que ostentamos? Com o tempo para ver nosso reflexo, com o olho acostumando aos contrastes, nada mais fica escondido.
Quando a pandemia passar e o novo normal se estabelecer, será que teremos superado todo esse autoconhecimento imposto, será que nos sentiremos confortáveis em refletir nossas máscaras, nossa autoimagem?
Isso vai ser o verdadeiro desafio para muita gente.

maio 12, 2020

O caminho mais difícil.

Muitas vezes, grande parte delas, eu gostaria de ter algum tipo de fé em um mundo espiritual, em alguma coisa espiritual. Não queria usar essa fé para ter esperanças de conseguir algo ou de algum consolo, ou que as coisas melhorassem sem esforço.
Eu queria acreditar que algo olha por mim, mesmo que olhando com maus olhos, só para entender alguns evento aleatórios. Coisas darem errado por alguma razão, eu até entendo, mas é duro quando do nada tudo muda, e muda para pior.
Uma vez, quando eu era criança, no Leme, acho,  correnteza me puxou e eu fiquei a centímetros de um banco de areia que deixava mar raso para mim. Toda vez que conseguia apoiar meu pé a areia se desfazia embaixo dele e eu voltava a ficar no fundo. Longos minutos. Tentando por cima e por baixo da água, vendo a areia e nunca pisando nela. Foi extremamente cansativo, pensei em desistir e deixar maré me levar várias vezes, depois alguém me resgataria e eu chegaria à praia.
Como adulto e sem fé, eu não acho que tenha alguém que vá resgatar ninguém.
E eu estou cansado igual, a areia sempre se desfaz sobre meus pés. Se eu não fosse hoje quem está no resgate, eu deixaria a maré me levar.

abril 18, 2020

O que é essencial?

Nota: será melhor compreendido por quem já leu 1984, do Orwell.
Todos sabemos que estamos passando pelo chamado confinamento isolamento social causado pela pandemia do Covid-19, o famoso vírus chinês.
Para manterem as pessoas em casa estão sendo feitos campanhas a nível mundial (!) com o slogan "fique em casa". Como eles não confiam que apenas campanhas vão fazer todas as pessoas obedecerem essa nova diretriz, os governos - municipais, estaduais, e nacionais de vários países - decretaram o fechamento de serviços não essenciais.
Só que eu me pergunto quem decidiu o que é ou não essencial? Essencial para quem? E quem depende da renda gerada pelos serviços não essenciais, essas pessoas são não essenciais também?
Quando (ou "se") a situação voltar ao normal de antes da crise, o que alguns mal lembram, será que vão deixar a gente ter as mesmas liberdades para fazermos o que fazíamos antes, mesmo sendo o que os Governos consideram não essencial? 
Não há uma resposta fácil para isso, desconfio que não aja nem uma resposta para isso.
Pode, hoje parecer paranoia, espero mesmo que daqui a alguns anos eu leia isso veja que foi paranoia, porque, se não for, dificilmente estarei aqui para reler isso.

outubro 21, 2019

Apenas uma fase.

Certeza que é a pior fase da minha vida. Não sei ao certo quando começou, mas posso garantir que está muito longe de terminar.
Por que eu sei disso?
Porque não me reconheço mais, não me reconheço mais na impaciência que tenho, no isolamento que procuro, nos erros que cometo e tenho que pagar por isso. Pagar por decisões erradas é algo que eu acho que tem que existir, não reclamo, apenas enfrento com estoica resignação, mas não sou acostumado a errar.
O problema são as coisas fora do meu controle que têm sucessivamente acontecido, esgotando todo meu ânimo e energia. O problema é, talvez, a falta de um problema grande que eu possa encarar. Seria bem melhor que esse monte de pequenos problemas acumulados e impossíveis de serem resolvidos. O problema é quem deveria ajudar, mesmo involuntariamente, causando mais aborrecimentos. O problema é a quantidade de pequenos problemas presentes em qualquer lado que olho.
Outro problema é por eu nunca reclamar da vida, as pessoas olham para mim e acham que está tudo bem e, por acharem que está tudo bem, acharem que eu tenho a obrigação de ouvir o desabafo deles e, às vezes, até a obrigação de ter que ajudar.
Sem tempo, irmão.
Sei que eu estou cansado disso, muito cansado.
Sei que, por enquanto, desistir não é uma opção pois mais gente depende de mim. Mas em breve será.

julho 04, 2019

Limites.

Finalmente chegou o dia, o dia que eu achei que nunca chegaria. Cheguei ao meu limite, mas não é por isso que eu posso parar.
Cheguei a um ponto que eu duvidava que existisse, um ponto que eu precise pensar nas coisas, pensar em consequências, pensar no que pode dar errado. Não agir como fiz a vida inteira: deixando o conhecimento e os instintos me guiarem.
Não gosto de errar, mesmo que ninguém saiba, não gosto de ser pego de surpresa por um ato impensado. Boas intenções não aliviam em nada, o resultado ainda está lá.
Sempre cometi poucos erros, não esquecia datas, compromissos, trivialidades.  Hoje mal lembro das obrigações, não consigo estabelecer um hábito nem cumprir o que me prometo.
Trabalho, estudo, família, vida. Tudo em cima de mim e ao mesmo tempo. Decidindo por mim, decidindo pelos outros, esperando respostas e posicionamentos, resoluções ou, pelo menos, paliativos que não estão em minhas mãos. Não vou me acostumar nunca a esperar pelos outros. Preocupações e problemas se acumulando como se fossem programas rodando em segundo plano, ocupando memória, estressando.
Sempre achei que poderia vir qualquer coisa que eu saberia separar, cada problema na sua hora de resolver. Não dá mais. Eles se misturam, se empurram, se acotovelam querendo prioridade nas soluções, soluções que não posso dar.
Os problemas não vão se resolver, não vão terminar de aparecer, cheguei ao limite e terei que seguir em frente até um novo limite.
Até um último limite.

janeiro 30, 2019

Desânimo.

É complicado viver em um lugar onde o errado além de ser regra, vale a pena. Quem não acha certo seguir por esse caminho, faz as coisas certas e dependem dessa reciprocidade só se ferra. Se ferra muito e sempre, e não há a quem recorrer porque as Leis, que deveriam proteger a Justiça, estão do lado de quem é errado, são lentas, incompetentes ou tudo isso junto.
Tento sempre não me deixar abater com os revezes que não estão em minhas mãos, que não foram consequências de meus erros e negligência, mas esses são raros. O problema está quando eu confio em um contrato, em uma lei, em promessas de pessoas que também vão ganhar me ajudando e nada fazem. Um inferno.
Todo dia uma coisa, todo dia uma nova derrota.
Está cada dia mais difícil caminhar contra a tempestade, a tempestade está se fortalecendo mais rápido que eu posso acompanhar e eu já estou cansado disso.

outubro 30, 2018

Pregando para convertidos.

Algumas vezes, não, a maioria do tempo é bem frustrante, é bem irritante e muito difícil manter meu posicionamento de não me afastar das pessoas por causa das opiniões. Vejo cada coisa que dá vontade de argumentar só para mostrar o erro de lógica entre causa e efeito, mas acho chato quando tentam fazer isso comigo com menos base, imagina eu chegar com conhecimento, referências e links. Deixo pra lá, com muito custo.
Por outro lado, sei que a maioria das pessoas não tem essa paciência e acaba silenciando perfis (sim, faço isso com gente sem base, argumentando com base num conhecimento feito por hashtags), percebo isso quando vejo argumentos fracos sem resposta.
Acabou que hoje acabam pregando para os convertidos, gente que "lacra" em busca de aprovação, não para convencer alguém, ou dar a oportunidade de aprender (não é concordar nem mudar de ideia!) um outro ponto de vista, um elo que está faltando. 
Como no post anterior, as bolhas vão ficando cada vez mais opacas e mais difícil de percebermos que estamos nelas. Sim, não me excluo desse efeito, é complicado sair.
As Cavernas de Platão hoje são virtuais.

setembro 19, 2018

Bolhas.

Sempre fiz questão de manter vários grupos de amizades, ou coleguismo. Grupos totalmente diferentes uns dos outros, não fiz isso de caso pensado, apenas aconteceu. E, no final, acho que isso foi bom para mim porque sempre tive acesso a várias correntes de pensamento e ao que levava as pessoas a pensarem daquele jeito.
Eu hoje respeito qualquer linha de pensamento, e se questiono o modo de pensar de alguém, não é para fazer a pessoa mudar de ideia (às vezes, confesso, é para plantar uma dúvida sim), mas para entender o porquê dela pensar daquele jeito. Faço isso até com quem tem opiniões próximas às minhas, os motivos tendem a ser diferentes.
Sempre é bom ressaltar que respeitar e entender como uma pessoa pensa não é pensar igual e muito menos aplicar aquilo na sua própria vida.
Mas hoje tá complicado.
O irônico é que o pessoal que se auto-rotula como mente aberta é o que mais exclui quem não segue o que eles decidiram como certo, ou melhor, o que decidiram por eles como sendo O Certo. Criou-se a imagem que o que não é concordância é ofensivo, é burrice, é mal caratismo, e não apenas a análise baseada em outra experiência e história de vida. Se fecham numa bolha de, como posso dizer isso sem ser vulgar... masturbação intelectual (não consegui amenizar, desculpem), se afastam do mundo real, onde existem n opiniões sobre o mesmo fato, onde a linha de certo e errado muda em uma gigante área cinza, variando de indivíduo para indivíduo.
Como eu nunca me vi dentro de uma dessa bolhas, me excluí e fui excluído reciprocamente, embora me force a acreditar que involuntariamente. Triste, porque são pessoas que eu gosto da companhia, admiro a inteligência e o humor. Vou sentir falta. Mas não consigo admirar a sanha deles de decidir como os outros têm que pensar e se comportar, não consigo admirar os duplos padrões, analisar os atos pelos atores, não pelas ações.
Quando o mundo se fechar em bolhas, eu vou ficar sozinho entre elas e contra elas, provavelmente.
Pelo menos eu gosto da minha companhia.

julho 26, 2018

O Não-Conhecimento como Questão de Honra.

Não vou dizer que é burrice, porque além de eu não suportar essa linha de argumentação onde quem não concorda com a gente é menos inteligente, eu vejo isso acontecer em algumas pessoas que eu considero que sejam muito inteligentes, muito mais que eu, também. Mas eu preciso aprender que nem todo mundo gosta de saber os fatos, de traçar um comparativo, dá trabalho. O penoso trabalho de pensar.
É bem mais fácil acreditar na primeira versão que apoie nossas convicções, porque, imagina só se aparece um fato novo e a gente tem que repensar nossas posições? Porque ouvir o lado oposto, ou até mesmo um ponto de vista diferente, mas não tão oposto assim? Não pode, a diminuta zona de conforto não pode ser perturbada, não vai ser expandida com dúvidas. O irônico é que as certezas sempre diminuem a zona de conforto.
Eu que estou errado em mostrar o porquê eu penso diferente na esperança que as pessoas farão a mínima força para entender o que eu falei. Entender, apenas. Não espero que concordem, e acho que nem quero. Mas ainda me surpreendo com as reações. Eu sou o insuportável em mostrar que existe mais de um jeito de ver o mundo, eu sou o insuportável em mostrar que discursos histéricos e correntes de Whatsapp e qualquer coisa que apele ao emocional está invariavelmente errado. Sou o mané por mostrar uma lógica além do óbvio, por mostrar fatos omitidos para uma narrativa falaciosa fazer sentido.
Sim, eu sou o errado.
Não pelo descrito acima. Eu sou o errado por achar que as pessoas tem algum apreço pela verdade, por saber tudo sobre um assunto antes de estabelecer um ponto. Eu sou o errado por querer iluminar as trevas do senso comum.
Eu tenho que aprender a conviver com o fato que nem todo mundo gosta de conhecimento. Pelo menos eu não preciso aprender a conviver com essas pessoas.

maio 27, 2018

Fanatismo e isolacionismo.

Nem vou falar da greve dos caminhoneiros (maio de 2018) porque é um evento pontual e transitório e eu prefiro escrever sobre assuntos mais atemporais. Mas a greve que literalmente paralisou o Brasil, com desabastecimento severo de combustíveis e ameaça de desabastecimento de alimentos, e sua consequente discussão de causa, efeitos e responsabilidade em redes socais me deu o mote para escrever sobre algo que eu tenho visto e comentado em partes há muito tempo: a radicalização das opiniões.
Hoje a maioria das pessoas não se importa mais com o fato ou o discurso para julgar se certo ou errado, se importam apenas com quem disse ou fez algo para apoiar, um fanatismo que faz um lado estar 100% certo e outro 100% errado. É mais fácil, não precisa pensar. E, sabemos historicamente, que seguidores sem critério formam líderes sem fracos e idiotas. Darwin explica.
Não é difícil, acreditem, julgar uma ação ou discurso por ele, não pelo seu autor. Não é difícil, acreditem, olhar os argumentos do outro lado para ver se algo lá faz sentido para você, se pode ser aproveitado para melhor ou seu argumento, ideia ou prática. O que é difícil e sair dessa inércia de pensamento para tomar as próprias decisões, ter a própria opinião.
Com essa polarização todos perdemos, quando um lado se isola nele mesmo, ignora qualquer crítica ou tentativa de melhora, quando se ignora seus próprios erros estão se condenando a diminuírem de relevância e repetir os erros com um orgulho bobo e injustificável. O melhoramento tem que ser constante, e não se consegue isso apenas olhando de dentro, ninguém se aprimora com concordância cega.
Enquanto nossos líderes e, antes dele, nós mesmo, o tal do "povo" não entendermos que um lado precisa do lado contrário para ficar melhor, para se aprimorar vamos continuar nessa guerra de egos onde não há vencedores, só vencidos.

janeiro 04, 2018

Leitura difícil.

Ainda estou no início, ainda não li dez porcento da obra, mas estou a cada página, a cada parágrafo mais fascinado pelo livro O Arquipélago Gulag. Um livro infelizmente desconhecido do grande público brasileiro, mas por ouvir insistentemente no podcast do Senso Incomum referências a ele, tive a curiosidade despertada, pedi e ganhei como presente de Natal (obrigado, sra. Rocha).
Está sendo uma leitura muito difícil, tanto pela tradução (uma mistura de Português do Brasil, com Português de Portugal, como nomes traduzidos que dificultam a localização e reconhecimento dos personagens reais), quanto pela tristeza, angústia, medo e, principalmente, resignação com que foi escrito. Em linguagem técnica e monótona, como um relatório de produtividade, a história que conhecemos por alto é contada em detalhes por quem a presenciou. Aquelas coisas que parecem filmes de espionagem, mas que sabemos e tentamos ignorar, contadas como aconteceram e na quantidade que aconteceram choca mais por um relato propositalmente desprovido de emoção.
É um livro duro para quem gosta e conhece um mínimo de História, é uma leitura que eu, que gosto de ler, estou tendo uma baita dificuldade porque me esgota emocionalmente. Me deixa triste e revoltado. Me deixa temeroso porque ainda tem gente que defende que isso aconteça de novo, gente que eu conheço e que até está no meu grupo de amizades, apesar disso tudo.
Não posso dizer que recomendo o livro, mas gostaria que todos lessem para aprender um pouco mais do que querem esconder da gente, queria que todos soubessem que milhões de pessoas não podem ser resumidas a uma nota de rodapé de um livro de Ensino Fundamental.
Vai ser um livro que eu vou penar, mas tenho certeza que lerei mais de uma vez e corre o risco de substituir 1984 como meu livro preferido. Vivemos num mundo Orwelliano e  Kafkaniano e isso não é nada legal.

outubro 17, 2017

A Burguesia está acabando com a Barra

"A burguesia tá acabando com a Barra"
(Impressão minha ou o playboy mor do rocquenrou tá reclamando do pessoal que melhorou um pouco e tá indo morar no seu paraíso particular?)
"A burguesia é a direita, é a guerra"

"Vamos pôr a burguesia na cadeia
Numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista
Estou do lado do povo, do povo"
(Gulag só pros outros, né? Típico...)

"Porcos num chiqueiro
São mais dignos que um burguês"
(Considerando o burguês que ele foi...)

"Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país
E não abandoná-lo com uma pasta de dólares"
(Ele vê novela, quem diria. Que coisa burguesa...)

"O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem
E se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro
No sinal, no sinal"
(Não entendi, o povo é o cara que te enforca no sinal ou é o cara que vive como bicho? Isso que essa galera vê como "povo"?)

O pior é essa letra retratar como esse pessoal "antiburguês de iPhone" vê quem não é um deles naquela época e hoje. E tem gente que acha ele um pusta dum poeta (tem umas letras legais, mas "segredos de um liquidificador" envergonharia até o Vercilo).
Triste um país que meia dúzia de palavras de ordem em uma música valem mais que o que diz e como é a letra toda.